Institucional

Engenharias sofrem com alta evasão em meio a contradições do mercado de trabalho e desvalorização profissional

26/08/2025

As engenharias são estratégicas para qualquer projeto de desenvolvimento nacional, presentes em setores vitais como energia, infraestrutura, tecnologia e mobilidade urbana. No entanto, o Brasil enfrenta um grave desafio: a evasão nos cursos superiores de engenharia atinge patamares alarmantes, mesmo diante da relevância indiscutível da profissão.

Segundo o Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior, as engenharias ainda estão entre os cursos mais procurados na rede pública — Engenharia Mecânica ocupa o 5º lugar, Produção o 8º e Elétrica o 9º. Porém, a taxa de evasão chega a 65,2% na rede privada e 43,4% na pública, revelando um quadro que vai além das dificuldades individuais e reflete problemas estruturais. O número de concluintes em cursos de Engenharia caiu de 124.810 em 2018 para 87.782 em 2023, segundo o Censo da Educação Superior (Inep). Em Engenharia Civil, a queda foi de 50 mil para 26,5 mil. Se a tendência continuar, o Brasil pode enfrentar um déficit de mais de 1 milhão de engenheiros até 2030, reforçando a falácia da importação de engenheiros e relegando subempregos aos brasileiros.

Um dos principais entraves está no próprio modelo de mercado. De um lado as empresas exigem experiência prévia dos recém-formados, do outro lado está a mercantilização do ensino, com a proliferação sem critérios do EAD. Hoje os cursos no formato EAD reconhecidos pelo MEC e outros organismos (Conselhos, Institutos...) precisa ofertar no mínimo 50% das horas aulas em laboratórios ou no campo.  Mas, esse círculo vicioso fecha portas justamente para quem busca o primeiro emprego, aprofundando a frustração dos jovens engenheiros.

A questão financeira é talvez o fator ainda relevante. Os cursos de engenharia estão entre os mais caros do ensino superior, exigindo investimentos altos em mensalidades, materiais e equipamentos. O retorno, no entanto, é desanimador. Hoje, enquanto o rendimento médio no Brasil gira em torno de R\$ 3 mil, o Dieese estima que o salário mínimo necessário devesse estar na casa dos R\$ 7 mil. Aos profissionais das engenharias contratados pela CLT o piso salarial estabelecido em 2022 é de  8,5mil reais e segundo a lei 4950ª, ou seja, pouco acima do salário mínimo estipulado pelo DIEESE, qualquer aumento se dará através dos acordos coletivos.

Esses dados ganham ainda mais relevo diante do contexto recente do mercado de trabalho. Apesar da taxa de desemprego no geral ter caído para 5,8% no segundo trimestre, o menor índice já registrado pelo IBGE, e o número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado ter alcançado recorde de 39 milhões, os empregos criados seguem, em grande parte, de baixa qualidade. Ou seja, mais vagas não significam, necessariamente, melhores salários ou valorização das carreiras que exigem alta qualificação, como as engenharias.

 

É nesse cenário que o SENGE-GO  reforça a necessidade de luta permanente por valorização profissional: salário mínimo profissional respeitado, condições adequadas de trabalho, planos de carreira e valorização do conhecimento técnico. Além disso, o SENGE-GO defende a formação com excelência educação continuada e preparo para lidar com os desafios das novas tecnologias, como a inteligência artificial, que já impacta profundamente todos os setores da economia.

O SENGE-GO considera que o programa Nova Indústria Brasil (NIB), que prevê a digitalização de 90% das empresas e o aumento da participação nacional em tecnologias avançadas deve também contemplar a qualificação técnica, a responsabilidade ética e a inteligência crítica, atributos indispensáveis para que engenheiros e engenheiras contribuam de forma sustentável para o futuro do país.

Valorizar as engenharias, portanto, não é apenas uma demanda corporativa ou setorial, mas uma condição essencial para que o Brasil alcance um desenvolvimento de fato justo, inovador e soberano.

 



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