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Por que Saneamento Básico é uma questão de gênero?

11/06/2021

Cheiro de esgoto, dor de barriga, sujeira. Não dá mais, diz a mulher. Saneamento básico é qualidade de vida!

Afinal, você realmente sabe o que é saneamento básico? A lei diz que é ele quem cuida do abastecimento de água e tratamento de esgoto, drenagem urbana e manejo de resíduos sólidos mas, o seu compromisso vai muito além. Como um setor que implica diretamente na qualidade de vida da população, ele se relaciona, fundamentalmente, com o meio ambiente, saúde, economia, educação, trabalho, moradia. E afeta, principalmente, as mulheres.

Grandes problemas do setor são influência de uma cultura que responsabiliza as mulheres de toda raça, classe e idade pelos trabalhos domésticos. A 33ª Sessão da Assembleia Geral do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a qual foi realizada no dia 27 de julho de 2016, tratou especificamente disso!

 

         Estar mais em casa significa que a mulher quem deve buscar a água longe, cuidar de quem adoece por conta da inadequação do saneamento, lidar com ruas intransitáveis, estar em maior contato com a água contaminada ou, simplesmente, ter que sentir o cheiro fétido. Isso mostra que a falta de saneamento básico limita o potencial da mulher no âmbito profissional, nos estudos e no seu próprio bem-estar.

 

          Para se ter uma ideia, o estudo “O Saneamento e a Vida da Mulher Brasileira”, em outubro de 2018, mostrou que o acesso a água e esgoto tiraria imediatamente 635 mil de mulheres da pobreza, sendo maior parte delas negras e jovens.

 

         No mesmo ano de 2018, com o objetivo de existir um espaço que represente o saneamento básico como esse setor multifacetado e técnico, mas que também precisa ser humano, foi fundado o Instituto Mulheres do Saneamento, o MUSAS. Protagonizado por mulheres do setor, o Instituto compreende que formação humana significa engajamento contra a sistemática de gênero, dentro e fora do setor, e atuação por mudanças que envolvam essa questão

 

         “O MUSAS é sobre ser mulher. E ser mulher num setor que precisa de estrutura humana.” Disse Juliana Matos, membra da equipe técnica sênior na Companhia Saneamento de Goiás S/A  (Saneago) e fundadora e CEO do Instituto Musas.  Para a engenheira que está há 26 anos na área do saneamento, a falta de acesso amplia sistematicamente a luta de gênero e a representatividade que almejam pode ajudar a compensar a carência de ações adequadas nesse sentido. 

 

        Depois da criação do MUSAS, o setor continua a ter predominância masculina, mas entre as conquistas está o aumento no número de mulheres em cargos altos na Saneago. Matos que já ocupou sozinha o cargo de diretora da Saneago, junto a 4 homens, comemora que, hoje, a atual diretoria divide espaço com outras duas mulheres.

DE TODOS OS LADOS

         Mesmo com essa especificidade da questão de gênero, todo mundo sofre, de um jeito ou de outro, com a falta de saneamento e cada setor tem responsabilidade dentro desse processo. Entender isso é reconhecer sua transversalidade e assim contribuir para quebra de certas barreiras impeditivas.

 

         Sem que o saneamento controle o esgoto, sem que o esgoto seja direcionado e coletado, ele pode contaminar as águas, o solo e o ar. Se os detritos espalhados pela água não são tratados, eles podem subir para a atmosfera e formar nuvens tóxicas, capazes de se deslocar até lugares mais distantes. Ou seja, talvez não adiante morar em um lugar com tratamento adequado se o seu vizinho de bairro não mora.

 

         Aliás, vale ressaltar que para muitos cientistas os problemas sanitários também são associados ao aquecimento global e esse aí não descrimina... Como quando o Rio Tietê transbordou e inundou vários pontos da região nobre de SP, no ano passado.  "Constatamos uma certa mudança no padrão... É mais tempo sem chuva, mas com uma intensidade maior quando acontece", disse a cientista Márcia Zilli, em entrevista ao G1 na época.

 

         De acordo com Juliana, os problemas do Agronegócio, por exemplo, um dos principais setores da economia brasileira, também tem relação com o saneamento básico. “O saneamento é usuário da bacia, do recurso hídrico. Se não há preservação desse recurso hídrico, eu não tenho água suficiente para atender a demanda. Do que adianta fazer a rede se não há água suficiente nos mananciais para captar, tratar e abastecer a população? Ou ter rede de esgoto, tratar, mas não poder devolver ao meio ambiente esse efluente tratado, porque o recurso hídrico, em função da degradação, não possui condição favorável para receber?"

 

         Água, solo e ar, contaminados ou não, essa responsabilidade envolve também todo o sistema de saúde. Segundo o Instituto Trata Brasil, foram 233 mil internações e 2180 mortes associadas à falta de saneamento básico em 2018, sendo 10.000 casos a mais de mulheres do que de homens. Para as mulheres, a falta de saneamento é uma das principais causas de doenças por veiculações hídricas. A diarreia, por exemplo, deixou as mulheres em casa, em média, 3,5 dias por ano. O que isso significa para as cariocas, por exemplo, que no início do ano passado tomaram banho de mar com coliformes fecais?

 

         Além disso, essas internações geram um déficit de 6 bilhões. De acordo com o Trata Brasil, caso houvesse acesso ao saneamento universal, as mulheres, que ganham $800,00 a menos que o homem, passariam a ganhar um acréscimo de R$ 321,0 por ano, o que resultaria em um ganho de R$12 bilhões à economia, ou seja, um excedente econômico e não um déficit. Sim, saneamento básico influi sobre a desigualdade salarial. Tudo isso porque uma trabalhadora sem banheiro em casa tem a renda 73,5% menor em comparação às trabalhadoras com banheiro em casa.

 

         E não para por aí. As grandes cidades cresceram e foram habitadas de forma desorganizada. E a ocupação irregular, como consequência da marginalização, significa uma moradia com risco de enchentes e inundações e muitas vezes assentadas em áreas de proteção ambiental, aonde o serviço não chega por falta de regularização. É uma situação que se relaciona com o direito à moradia, mas também com a preservação ambiental, saúde...

 

DESTAQUE AOS PAULISTANOS

         O polo econômico do país também dispõe de uma marginalização espacial, mas os números, segundo o Painel de Saneamento Brasil,  retrata uma realidade mais saudável, com só 1,3% da população sem acesso à água.

 

         O destaque do saneamento básico em São Paulo também se traduz em uma diferença menor entre as notas do Enem- de quem tem saneamento e os que não tem, se é menino ou menina. Enquanto no Brasil existe uma diferença entre os que tem acesso e os que não tem de quase 50 pontos, sendo as meninas as mais mal classificadas, com 46 pontos a menos que a média, na grande SP a diferença tanto de meninos e meninas com acesso adequado ou não, é de 34 pontos

 

         Os números não são ideais, mas a situação da capital está cada vez mais perto da universalização. O presidente da Sabesp, Benedito Braga, até garantiu em entrevista ao Jornal da Manhã que o estado de São Paulo pode ser considerado um exemplo no saneamento básico brasileiro. A grande diferença de São Paulo para as outras regiões do Brasil? Investimentos.

 

         O Atlas Esgoto afirma uma necessidade de R$149,5 bilhões para que se cumpra o marco civilizatório (Lei nº 14.026/2020), aquele famoso que planeja que todo brasileiro tenha acesso a água e esgoto tratado até 2043 - o que já é muito distante. Além disso, para atingir resultados, o ciclo de saneamento básico depende de estratégias que envolvem a articulação entre todos esses setores mencionados.

 

         O MUSAS entendeu a necessidade criar núcleos do instituto pelo Brasil enquanto uma rede de troca, para aprender uns com os outros. Mesmo que cada região conserve suas particularidades e seus próprios desafios, essas mulheres acreditam no poder do diálogo e do equilíbrio das ideias tanto de homens quanto de mulheres, ao redor do Brasil, para melhorar a qualidade de vida do brasileiro.  

 

         O espaço conta com uma ampla rede de apoio que ajuda a desafogar as mulheres que sofrem algum tipo de assédio, fóruns de informação, a possibilidade de criar redes de contato, consultoria etc. Tudo isso como mecanismos para atender as mais diversas demandas do setor para quem é mulher. 

 

         Uma das frentes da organização é o Podcast “Mulheres do Saneamento”, produzido em parceria com a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cacege). O Podcast foi criado com o propósito de mostrar às mulheres de “fora do setor” que o que elas fazem também é saneamento básico. Além disso, são convidadas mulheres do saneamento para falar sobre as dores e as delícias de estar nesse meio e abordar temas como a história do saneamento, racismo e discriminação, voto, assédio e muitos outros tópicos pessoais e profissionais. Conversas sobre esses temas são publicadas também no canal do Youtube.

 

         Um dos temas abordados por um dos últimos Podcasts é a pandemia e como ela prejudica principalmente mulheres. “(Na pandemia) A mulher realmente se sobrecarregou mais do que ela é sobrecarregada e tem sofrido as consequências dessa ação. Tanto na saúde, por serem as mais contaminadas, como a parte econômica e financeira porque elas que estão perdendo os empregos”.  

 

         A própria pandemia é produto de uma crise sanitária, mas não só. E nos mostra, mais uma vez, como é importante dar atenção a esse setor e a suas competências, que envolvem tudo e a todos. “O saneamento é um segmento que ficou esquecido durante muito tempo, mas nós estávamos trabalhando.” disse a representante do MUSAS.

​Fonte: Revista Transversa



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