A ocupação de um terreno localizado na Avenida 136 com a Rua 132, entre os setores Sul e Marista, em Goiânia, acende um alerta urgente: a possível degradação de uma área de nascente vinculada ao sistema hídrico do Córrego dos Buritis.
Mesmo não sendo formalmente delimitada como Área de Preservação Permanente (APP), a região é reconhecida por estudos técnicos, manifestações do Ministério Público e análises urbanísticas como ambientalmente sensível, com presença de lençol freático superficial e afloramentos hídricos que contribuem para o equilíbrio do sistema de drenagem urbana.
Uma nascente invisibilizada pelo planejamento urbano
O caso revela uma contradição estrutural do modelo de desenvolvimento urbano vigente em Goiânia. A área está inserida em zona classificada como urbanizável pelo Plano Diretor (Lei Complementar nº 349/2022), permitindo adensamento e ocupação. No entanto, essa classificação ignora — ou minimiza — características ambientais fundamentais, como a existência de nascentes difusas e a função ecológica do solo.
O próprio Ministério Público do Estado de Goiás já reconheceu a necessidade de proteção do local, ao firmar acordo que prevê medidas como:
Essas medidas evidenciam um ponto crucial: há risco ambiental concreto, ainda que não formalmente enquadrado como APP.
Uso como pátio de veículos: agravamento do impacto
A recente utilização da área como pátio de veículos — com compactação do solo, possível impermeabilização e circulação constante de cargas — representa um agravamento significativo desse risco.
Do ponto de vista da engenharia urbana e ambiental, esse tipo de uso pode provocar:
Em uma cidade que já enfrenta problemas históricos de drenagem, ignorar essas dinâmicas é tecnicamente injustificável.
Um problema que impacta toda a cidade
O Córrego dos Buritis, parcialmente canalizado ao longo dos anos, já sofre com processos de degradação que se refletem em alagamentos, perda de biodiversidade e redução da qualidade ambiental urbana.
Intervenções em suas áreas de nascente — ainda que não oficialmente reconhecidas — têm efeito cumulativo e direto sobre:
Legal não é sinônimo de correto
A ausência de classificação formal como APP não pode ser utilizada como justificativa para a permissividade total de uso. A engenharia, o planejamento urbano e a legislação ambiental contemporânea já reconhecem a importância de proteger áreas de sensibilidade hídrica, mesmo quando não delimitadas de forma clássica.
A situação expõe uma lacuna grave entre:
É preciso agir
Diante desse cenário, o Sindicato dos Engenheiros no Estado de Goiás (SENGE-GO) chama a atenção das autoridades municipais, órgãos ambientais e da sociedade para a urgência de medidas concretas:
Mais do que um caso isolado, trata-se de um exemplo emblemático de como o modelo de ocupação urbana pode comprometer recursos naturais essenciais à vida na cidade.
Defender as nascentes é defender o futuro
Ignorar a existência de nascentes — apenas porque elas não estão visíveis ou formalmente delimitadas — é um erro técnico e político. A cidade real não se limita ao que está no papel.
A defesa das águas urbanas, do equilíbrio ambiental e da segurança da população exige responsabilidade, conhecimento técnico e compromisso público.
O SENGE-GO reafirma seu papel na defesa de uma engenharia comprometida com o interesse coletivo e com o desenvolvimento sustentável.
Não se trata apenas de um terreno. Trata-se do futuro ambiental de Goiânia.
