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Nascente ameaçada em Goiânia: uso irregular de área sensível expõe fragilidade ambiental e omissão do poder público.  

17/03/2026

 

      A ocupação de um terreno localizado na Avenida 136 com a Rua 132, entre os setores Sul e Marista, em Goiânia, acende um alerta urgente: a possível degradação de uma área de nascente vinculada ao sistema hídrico do Córrego dos Buritis.

     Mesmo não sendo formalmente delimitada como Área de Preservação Permanente (APP), a região é reconhecida por estudos técnicos, manifestações do Ministério Público e análises urbanísticas como ambientalmente sensível, com presença de lençol freático superficial e afloramentos hídricos que contribuem para o equilíbrio do sistema de drenagem urbana.

 

       Uma nascente invisibilizada pelo planejamento urbano

       O caso revela uma contradição estrutural do modelo de desenvolvimento urbano vigente em Goiânia. A área está inserida em zona classificada como urbanizável pelo Plano Diretor (Lei Complementar nº 349/2022), permitindo adensamento e ocupação. No entanto, essa classificação ignora — ou minimiza — características ambientais fundamentais, como a existência de nascentes difusas e a função ecológica do solo.

      O próprio Ministério Público do Estado de Goiás já reconheceu a necessidade de proteção do local, ao firmar acordo que prevê medidas como:

  • manutenção da permeabilidade do solo
  • implantação de sistemas de drenagem e infiltração
  • preservação do lençol freático associado ao Córrego dos Buritis

       Essas medidas evidenciam um ponto crucial: há risco ambiental concreto, ainda que não formalmente enquadrado como APP.

 

       Uso como pátio de veículos: agravamento do impacto

       A recente utilização da área como pátio de veículos — com compactação do solo, possível impermeabilização e circulação constante de cargas — representa um agravamento significativo desse risco.

     Do ponto de vista da engenharia urbana e ambiental, esse tipo de uso pode provocar:

  • redução da capacidade de infiltração da água no solo
  • rebaixamento ou alteração do lençol freático
  • aumento do escoamento superficial
  • intensificação de alagamentos em áreas a jusante
  • comprometimento da recarga hídrica do sistema do Córrego dos Buritis

      Em uma cidade que já enfrenta problemas históricos de drenagem, ignorar essas dinâmicas é tecnicamente injustificável.

 

        Um problema que impacta toda a cidade

        O Córrego dos Buritis, parcialmente canalizado ao longo dos anos, já sofre com processos de degradação que se refletem em alagamentos, perda de biodiversidade e redução da qualidade ambiental urbana.

        Intervenções em suas áreas de nascente — ainda que não oficialmente reconhecidas — têm efeito cumulativo e direto sobre:

  • o funcionamento do sistema de drenagem urbana
  • a segurança da população em períodos chuvosos
  • a sustentabilidade hídrica da região central de Goiânia

 

Legal não é sinônimo de correto

      A ausência de classificação formal como APP não pode ser utilizada como justificativa para a permissividade total de uso. A engenharia, o planejamento urbano e a legislação ambiental contemporânea já reconhecem a importância de proteger áreas de sensibilidade hídrica, mesmo quando não delimitadas de forma clássica.

     A situação expõe uma lacuna grave entre:

  • o que a lei permite
  • e o que a ciência e a técnica recomendam

 

       É preciso agir

       Diante desse cenário, o Sindicato dos Engenheiros no Estado de Goiás (SENGE-GO) chama a atenção das autoridades municipais, órgãos ambientais e da sociedade para a urgência de medidas concretas:

  • revisão da classificação ambiental da área
  • realização de estudos hidrogeológicos independentes
  • suspensão de usos que comprometam a permeabilidade do solo
  • fiscalização rigorosa por parte dos órgãos competentes
  • transparência nas autorizações e licenças concedidas

      Mais do que um caso isolado, trata-se de um exemplo emblemático de como o modelo de ocupação urbana pode comprometer recursos naturais essenciais à vida na cidade.

     

      Defender as nascentes é defender o futuro

      Ignorar a existência de nascentes — apenas porque elas não estão visíveis ou formalmente delimitadas — é um erro técnico e político. A cidade real não se limita ao que está no papel.

      A defesa das águas urbanas, do equilíbrio ambiental e da segurança da população exige responsabilidade, conhecimento técnico e compromisso público.

     O SENGE-GO reafirma seu papel na defesa de uma engenharia comprometida com o interesse coletivo e com o desenvolvimento sustentável.

     Não se trata apenas de um terreno. Trata-se do futuro                     ambiental de Goiânia.

 

 

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