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NR10: entre a norma e a realidade — o custo humano da negligência no setor elétrico

26/03/2026

      A segurança no setor elétrico brasileiro está longe de ser apenas uma questão técnica — trata-se de uma questão de vida ou morte. O recente falecimento de um trabalhador terceirizado em Goiás, vítima de choque elétrico durante atividade em rede de energia, expõe uma realidade que insiste em se repetir: a distância entre o que determina a norma e o que ocorre no cotidiano das operações.

     É nesse contexto que ganha relevância o debate trazido pelo engenheiro Aguinaldo Bizzo, publicado na revista O Setor Elétrico, ao discutir os impactos e desafios da NR10 — norma que estabelece os requisitos mínimos de segurança em instalações e serviços com eletricidade.

 

NR10: uma norma robusta, mas frequentemente descumprida.

      A NR10 é clara: a segurança deve ser garantida em todas as etapas, desde o projeto até a manutenção das instalações elétricas. Ela exige:

  • gestão de riscos estruturada
  • capacitação permanente dos trabalhadores
  • medidas de controle coletivas antes do uso de EPIs
  • integração entre contratantes e terceirizadas

     Como destaca Bizzo, a norma não se limita à operação, mas abrange todo o ciclo do sistema elétrico — incluindo projeto, construção e manutenção.

     Outro ponto central levantado pelo autor é que o risco elétrico é dinâmico e muitas vezes subestimado, especialmente em atividades como manutenção e inspeção, onde há exposição direta a arco elétrico e partes energizadas.

    Mais grave ainda: segundo o engenheiro, predominam documentos genéricos e avaliações de risco que não refletem a realidade, o que compromete a eficácia da prevenção.

 

Quando a norma não chega ao trabalhador

      O caso recente em Goiás é emblemático. Um trabalhador terceirizado morreu após sofrer descarga elétrica durante atividade em estrutura de energia. As circunstâncias ainda são investigadas, mas há indícios de contato com linha energizada — situação que deveria ser rigidamente controlada por protocolos da NR10.

     Não se trata de um episódio isolado. Em poucos dias, o estado registrou múltiplas mortes por choque elétrico, evidenciando um cenário preocupante.

     Esses acidentes revelam falhas estruturais:

  • ausência ou falha de bloqueio e desenergização
  • insuficiência de treinamento
  • fiscalização precária
  • pressão por produtividade

 

Terceirização: o elo mais frágil da cadeia

    Estudos do próprio setor elétrico mostram um dado alarmante: trabalhadores terceirizados são as principais vítimas de acidentes fatais.

  • chegaram a representar mais de 90% das mortes por acidentes elétricos em determinados anos
  • mesmo sendo cerca de metade da força de trabalho, concentram a maioria dos óbitos ([Abracopel][5])

     Isso evidencia um padrão: as atividades mais perigosas são transferidas para trabalhadores com menor proteção institucional.

    A terceirização, quando associada à redução de custos, tende a gerar:

  • menor investimento em capacitação
  • precarização das condições de trabalho
  • fragmentação da responsabilidade
  • enfraquecimento da cultura de segurança

 

Fator humano x lógica do lucro

     A análise técnica de Bizzo converge com a realidade sindical: não se trata apenas de erro humano.

    O chamado “fator humano” frequentemente é utilizado para individualizar a culpa, quando na verdade

  • o trabalhador está inserido em um sistema de pressão por metas
  • enfrenta jornadas intensas e condições adversas
  • muitas vezes não tem autonomia para interromper atividades inseguras

     A NR10 é explícita ao priorizar medidas de engenharia e proteção coletiva, deixando o EPI como última barreira.

    No entanto, na prática, o que se observa é o inverso:

  • transfere-se o risco para o trabalhador
  • reduz-se o investimento estrutural
  • maximiza-se o lucro no curto prazo

   

A posição do SENGE-GO: segurança não é custo, é obrigação

     Diante desse cenário, o posicionamento sindical é claro: não há justificativa técnica, econômica ou moral para a morte de trabalhadores por falhas evitáveis.

O SENGE-GO defende:

  • cumprimento rigoroso da NR10 em todas as etapas
  • responsabilização solidária entre contratantes e terceirizadas
  • fortalecimento da fiscalização pública
  • valorização dos profissionais da engenharia e da segurança do trabalho
  • fim da precarização nas atividades de alto risco

     Mais do que isso, é necessário resgatar o papel da engenharia como garantidora da vida e da segurança, e não apenas como instrumento de produtividade.

 

Conclusão: entre norma e prática, vidas estão em jogo

     A NR10 é tecnicamente consistente e suficientemente abrangente. O problema não está na norma — está na sua aplicação.

    Cada acidente fatal no setor elétrico não é apenas uma estatística: é o resultado de uma cadeia de decisões, omissões e prioridades.

     A morte recente em Goiás reforça um alerta que não pode ser ignorado: enquanto a segurança for tratada como custo, trabalhadores continuarão pagando com a vida.

 

 Referencias da pesquisa

https://www.lirasdaliberdade.com.br/funcionario-terceirizado-morre-carbonizado-apos-choque-em-goias  "Funcionário terceirizado morre carbonizado após choque em Goiás"

https://www.seesp.org.br/site/images/Bizzo_WorkshopNRs_SEESP120525.pdf    Gestão de Perigos e Riscos Elétricos conforme NR10 e  ... - Seesp"

https://www.osetoreletrico.com.br/wp-content/uploads/2022/08/Edicao-188_FinalSIMPLES2.pdf energia incidente - O Setor Elétrico" 

https://globoplay.globo.com/v/14374145/  "Três pessoas morreram por choque elétrico em três dias, em Goiás"

https://abracopel.org/wp-content/uploads/2016/10/ARTIGO-NR10_MARCEL-AMORIM.pd revolução das condições de segurança do trabalho no setor elétrico ...

 

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